19 dezembro 2012

Gossip Girl

O sucesso da "Gossip Girl" explica-se facilmente: miúdas e miúdos bonitos e milionários na cidade mais telegénica do mundo viveram centenas de desencontros amorosos, forjaram incontáveis intrigas e espalharam glamour infinito. Numa palavra, lixo, e sei do que estou a escrever pois vi todos os episódios.

Quem seguiu a série teve as suas razões. Eu, por exemplo, agora que penso no assunto, só encontro explicação no hábito, na suposta dicotomia "uma lady na mesa, uma louca na cama" e no carácter antitético e cativante das personagens (são bons e maus mas adoráveis). A tal se juntou uma fórmula repetida à exaustão: A uma situação dramática, quase sempre inverosímil, seguir-se-iam planos de acção elaborados, mas tontos, que levariam a que todos os protagonistas se juntassem num evento que o comum dos mortais nem sequer ousa ter acesso.

Tudo isto foi suportável porque as miúdas são giras, Nova York é uma cidade extraordinária e se há coisa que os americanos sabem fazer, para além de jogar basquetebol e criar grupos de apoio, são séries de televisão. Até as más são bem feitas.

A grande questão é que aquela gente, apesar do bom aspecto, faz anos. Dado o enredo adolescente, seria de esperar que a série tivesse durado duas ou três temporadas. Chegou às seis. Qual a solução encontrada? Adaptar os problemas à idade dos protagonistas. Mantiveram o glamour, a cidade, o "quero comer esta gaja / quero ser esta gaja", conforme o género e a preferência sexual, e a fórmula em cada episódio. Adicionaram-lhe profissões, álcool e outras coisas mais que pouca ou nenhuma relevância tiveram. Em suma, fizeram render o caviar.

De qualquer das formas, ao ver a Gossip Girl pela última vez, dei por mim nostálgico. Será mesmo verdade que deixarei de perder quarenta minutos por semana, ao longo de seis meses, com esta obra-prima da futilidade? Em nome da coerência, decidi perder uma última hora lendo as reacções dos fãs. Os argumentos variam mas, grosso modo, estes dividem-se entre os que adoraram o final e os que se sentem indignados por aquilo que consideram ser um atentado ao legado que esta genialidade televisiva deixará.

O desapontamento desta gente é compreensível. Após cinco temporadas de vinte e quatro episódios, resolve-se tudo no décimo da sexta temporada. O mesmo será dizer que foi a martelo, ao melhor estilo telenevolesco. Felicidade em barda, como não poderia deixar de ser, condensada em dez minutos. Agonizante!

É certo que as miúdas, embora giras, já não são assim tão miúdas. É certo que, por mais que se queira acreditar em estilos de vida inalcançáveis, ninguém tem tantos problemas, protagoniza tantas tramas e marcar presença em tantos eventos. E é certo que, por muita imaginação que os guionistas eventualmente tenham, seria impossível, ao mesmo tempo, manter a fórmula e inovar. Seria outra série. Provavelmente melhor, certamente ainda mais desinteressante.

Talvez pareça ser um dos desiludidos mas não é o caso. Aliás, creio até que apenas um bom final me desiludiria. Como aguentei ver esta série por inteiro? "Esse é um segredo que nunca vos contarei".

P.S.: Alcancei um objectivo perseguido há meses: Escrever a palavra "antitético" num texto sobre a "Gossip Girl".

21 outubro 2012

Onde está a bola?

É com alguma incompreensão que detecto o gosto por correr em inúmeros amigos e amigas.

Oiço-os entusiasmados a revelarem que aumentaram um quilómetro ao seu tempo e fico feliz por ter tudo o que preciso perto de mim, por ser capaz de gerir os meus horários e por ser proprietário de um automóvel.

Anunciam que se sentem melhor fisicamente e são mais resistentes mas parecem ignorar que só está doente quem foi informado da sua enfermidade por um médico ou quem revela sintomas que não lhe permite sequer ter vontade de correr. Entre os arautos da condição física, muitos deles preocupam-se, essencialmente, com a sua aparência. Mas não hei-de ser eu quem, um dia, perante uma dose de cozido à portuguesa, darei por mim a pensar que estarei a hipotecar horas de esforço e dedicação em prol de dois quilos a menos.

Há ainda os corredores da natureza, ou mesmo os citadinos, que dizem passear em passo de corrida, o que me deixa acorrentado numa disputa semântica entre "andar" e "correr", "olhar" e "observar".

Por último, os filósofos, os que correm sem destino e os que solucionam problemas e encontram o sentido da vida entre passadas mais ou menos ofegantes. Gosto de pensar que poderia ser um destes corredores mas se, por um lado, reconheço uma certa dificuldade em estipular um marco para o regresso, por outro, a minha produção intelectual, em corrida, varia entre "onde está a bola?" e "onde está o cesto ou a baliza?".

E é por isto que, ainda de pijama, sentado na cama a beber coca-cola, decidi que vou jogar basket daqui a bocado. Ainda não sei se sozinho ou acompanhado mas o basket é como o sexo, não é necessária companhia para se sentir prazer.

À espera do segundo romance de Nuno Amado


Adorei. Agarra o leitor, tem ritmo, ideias, humor, está muito bem escrito e termina na altura certa. A evolução do homem que sente uma necessidade extrema de afirmar que não se matará para o que acredita, com algum desprendimento, que o suicídio não é uma solução, está muito bem construída. O tanto de existencialista que há na personagem principal, de "existencialista" à Camus, refira-se, e que muito aprecio, nota-se na rejeição do suicídio enquanto solução e da procura de um sentido de vida e no remetimento da sua existência para uma acumulação de experiências o mais prolongada possível.

"Agarrar o leitor" é capaz de ser a característica mais importante de uma obra para mim. E Nuno Amado fá-lo de várias maneiras, não sei se todas com esse propósito: Propõe ao leitor que descubra "aquilo-que-aconteceu"; Cria mistérios cativantes nas personagens secundárias; Foge, com mestria, a uma sequência óbvia da narrativa, pelo tema, receptor ou mesmo emissor das cartas; É imaginativo e cómico na despedida em cada carta, o que me fez sentir curiosidade para saber como seria a da próxima; E até na assinatura das mesmas, em que quase sempre me provocou um sorriso.

Depois as pequenas ideias, em dimensão, não em substância, que há às dezenas, talvez centenas. Por serem muitas, poderia ser interpretado como a armadilha frequente em que se cai de se pretender dizer tudo de uma vez só. Mas não é o caso. São muitas mas não em quantidade exagerada. São as suficientes e necessárias para dar corpo à personagem e percebe-se perfeitamente que não esgotou o seu manancial de observações e pensamentos sobre a vida e as relações.

Por último, e dado que somos amigos que se conhecem bem, tornou-se inevitável, de início, tentar perceber o quanto dele estaria na história. E é neste ponto que residirá, talvez, o melhor elogio que poderei fazer à obra: Cedo, e de forma natural, deixei cair esse papel. Envolvi-me na trama sem que desse importância a quem seria o autor. Terminada a leitura do livro, resgato essa importância por apenas uma razão: O livro é excelente e foi um dos meus melhores amigos quem o escreveu.

12 setembro 2012

A minha bola de basket


Perdida no esquecimento, foi o namorado da minha irmã que, em mudanças, a encontrou no topo de um roupeiro. Hoje, já em minha casa, peguei nela.

Relógio a aproximar-se do zero, adversários ferozes, público hostil, a conquista de um campeonato dependente de um cesto e a bola está nas minhas mãos. Afinal, em que mãos haveria de estar? Sonhar acordado é uma das nossas faculdades e esta resulta em sonhos nossos. Mais vale que sejamos os protagonistas. E sinto a falsa pressão. Qualquer amante do basquetebol que já tenha segurado uma bola, experimentou esta sensação. É inevitável!

Ter uma bola de basket nas mãos faz-me recuar à infância em que, das paredes do corredor da minha casa, fiz duas excelentes tabelas com aros imaginários perfeitos. Apesar de adorar a modalidade e apreciar os aspectos tácticos do jogo, nem sei bem se alguma vez gostei de praticar basquetebol. Tenho a certeza, no entanto, que ainda hoje adoro jogar basket. A diferença é facilmente perceptível.

Praticar basquetebol implica método, treino, repetição, concentração, partilha de objectivos, comprometimento, dedicação e tudo o resto que se exige a quem se propõe competir. Jogar basket é simplesmente jogar basket. É ter uma bola na mão e batê-la contra o chão. É determinar um destino e atirá-la nessa direcção. É sentir a bola e movimentá-la de acordo com a nossa vontade. É ter a noção de que aquele esférico, qualquer que seja a sua cor ou material, ao ser lançado, terá que atravessar aquilo a que nos propusemos tentar que atravessasse.

Jogar basket é ser livre porque é da infância que se trata. O tempo em que, com uma bola nas mãos e um aro - se necessário, imaginário - eram organizados e disputados campeonatos inteiros. É sentir que, mesmo havendo dificuldades aparentemente insuperáveis na vida, o importante é a bola e esta, uma vez lançada, atravessar um aro. Jogar basket, para mim, é o cumprir do sonho da criança, como eu, que só desejava jogar basket e julgava que a vida era uma longa sucessão de acontecimentos que intercalavam os momentos em que tinha uma bola nas mãos e a lançava ao cesto.

Há alguma razão válida para que não o seja?

12 agosto 2012

Agora


A interacção com alguém inteligente que produz e partilha, mesmo sem o saber, pensamentos interessantes, costuma desencadear, em mim, um efeito de ignição para a escrita. Sou, no entanto e por demasiadas vezes, susceptível de me enredar em actividades e temas diversos não conseguindo, consequentemente, deixar registo daquilo que, num determinado momento, me ocorreu. Não é este o caso, apesar de ter entornado, na minha secretária, um copo com coca-cola.

Ia-me perdendo então entre uma frase de um personagem do Albert Camus e uns versos de uma letra de uma canção dos INXS. O Mersault, de “O estrangeiro”, viu-se julgado, não pelo crime que cometera, mas antes pela evidente ausência de vínculos emocionais e sociais que revelava, por ser honesto, em cada resposta dada por si no âmbito da investigação e do julgamento de que foi alvo. Sob o espectro da condenação à morte, Mersault, apesar de apavorado, reconheceu que tal resolução não teria grande significado dado que, depois de morto, pouco importará o quando e como se morreu. Michael Hutchence, vocalista da famosa banda australiana que, curiosamente, cometeu suicídio, cantou qualquer coisa como “sonha e acorda num novo dia para te aperceberes que os teus sonhos desapareceram.

Da intersecção da leitura da convicção do Mersault e da descontextualização de excerto de uma letra dos INXS, estimulados pela (in)acção e receios de alguém a quem reconheço qualidades assinaláveis e atribuo importância, ocorreu-me que, desde cedo, criei a convicção de que a vida não apresenta grandes problemas. O simples facto de não descortinar, ou sequer tentar perceber, sentido na nossa existência, permite-me, de forma quase permanente, encará-la com naturalidade. Em poucas palavras: existo, existirei indeterminada mas não infinitamente, será melhor aproveitá-lo.

Julgo que é importante que sejam criados vínculos. O âmbito ou a extensão destes é absolutamente irrelevante. No fundo, acredito piamente que cada um sabe, ou deverá saber, de si. Antes de mais, um vínculo consigo próprio. Existo logo a minha existência fará sentido se for de mim que ela se trata. Não se o confunda com egoísmo, desrespeito pelo próximo ou irresponsabilidade. Defendo regras, ética e a impossibilidade de interfência na liberdade de outros. Um sistema anárquico seria interessante? Não! Precisamente por todos termos um racional diferente mas que apresenta um denominador comum: A procura de um sentido da vida. E este, não raras vezes, colide com o de outros.

Dirão alguns que esta constatação não passará de um mero artifício intelectual que explica, sobretudo, o instinto de sobrevivência. E não estão errados. Mas este é inato em qualquer ser vivo, mesmo aqueles que, dados os seus vínculos, se dirigem para a morte. Por paradoxal que pareça, morrer é o que lhes dá sentido à vida, trate-se de homens bomba ou salmões do oceano pacífico que morrem após a reprodução.

Nascemos para morrer, e nem sequer há qualquer drama nisto. Aceitá-lo, permite perspectivar o entretanto. No meu caso específico, abordo-o, diria, saudavelmente, tendo vindo a refinar, com o passar dos anos, esta postura. Não sou movido pelo desejo de imortalidade nem pelo reconhecimento generalizado. Limito-me aos meus vínculos, a mim. Ambiciono, sobretudo, que não me importunem. É-me indiferente a ideia de, um dia, acordar e perceber que os sonhos se desvaneceram. Viso, em tudo o que faço, a satisfação das minhas vontades e aceito que nem todas, por razões diversas, poderão ser satisfeitas. Anseio, simplesmente mas com responsabilidade e respeito pelos outros, por fazer cumprir o presente. Porque, repito, sem qualquer carga dramática, desespero ou mesmo indulgência, é no presente que vivo e não num amanhã onde o como e o quando poderão não ter qualquer importância…

16 novembro 2011

Lambada

Há acordar e acordares e hoje acordei bem-disposto. A razão é simples: uma música!
Bem sei que é constrangedor mas trata-se de uma música da Jennifer Lopez e de um tonto que se dá a conhecer por "Pitbull". Mais constrangedor ainda porque, por coincidência, ontem, enquanto jantava com os meus pais, a minha mãe falou-me desta música e eu não fazia a mínima ideia ao que ela se referia.
"On the floor- Jennifer Lopez e Pitbull", anunciou a locutora de serviço sem saber que, neste extremo da comunicação radiofónica, estaria um adulto embaraçado por ter gostado de acordar com esta melodia e por, pela primeira vez, ter sido ultrapassado pela sua mãe na audição de uma "música" contemporânea.
Constrangedor mas não incompreensível. Um pouco mais tarde dei-me conta que esta música não é mais que uma versão americanizada e moderna da "Chegando se foi", dos brasileiros Kaoma, popularmente denominada por "lambada".
A "lambada" surgiu quando eu tinha 12 anos, em 1989. Tudo era simples: Gostava do Benfica, de futebol, de basquetebol, dos meus pais e avós, raparigas e, disfarçadamente, da minha irmã, reconhecidamente chata mas irmã.
Com a "lambada" - e o seu vídeo - aventei a possibilidade de também começar a gostar de mulheres. Não de raparigas, como já sabia que gostava, mas daquilo que, eventualmente, as raparigas da minha idade poderiam tornar-se no futuro: mulheres descalças na praia a bambolear-se usando saias curtas e cuecas coloridas que não tapavam as nádegas.
Tudo o que nos remete para o imaginário infanto-adolescente é, normalmente, muito agradável! E é engraçado que, mais de vinte anos depois, vou constatando que não mudei assim tanto. Exceptuando, claro, em relação ao conceito da "minha idade" - algures entre os 20 e os 40 - e às mulheres que poderei gostar - não há restrições ao nível da indumentária, da sua localização ou como se movimentam!

11 setembro 2011

Edison, o pinga-amor


É como se fosse uma esfera de incontáveis luzes intermitentes, minúsculas, com menor ou maior intensidade, a orbitar-nos. Quase iguais, indiferentes.
Aqui e ali, uma delas pára de piscar, permanecendo acesa, cintilante.
O brilho intensifica-se, dá ideia que se alimenta a si próprio. E é notado, pelo que brilha mais ainda. Pode crescer, conservar-se, extinguir-se ou, no pior dos casos, voltar a piscar. O ocaso, geralmente, beneficia de comiseração. No entanto, requer uma causa. O regresso à intermitência é sinal de indiferença. Pior, portanto. Eventualmente intensifica-se ao ponto de se tornar um clarão!
Os clarões são interessantes, poderosos na medida que ofuscam, ou mesmo aniquilam, as luzes acesas, quanto mais as intermitentes. E nem sequer promove reflexão. É aceite, indubitavelmente.
Perduram. Por vezes, tornam-se vitalícios, verifica-se à posteriori.
E extinguem-se. Nem sempre mas também.
Aí ressurgem, paulatinamente, as luzes intermitentes. Porque não, de igual modo, as acesas? Outrora ofuscadas, ignoradas, esquecidas, irrelevantes.
É raro, reconheça-se! Como tal, digno de registo.
Que luz será esta que, apesar de ofuscada, ignorada ou esquecida, continuou a brilhar intensamente ao ponto de, não mais havendo um clarão, lá estar ela, imutável?
A pergunta exige uma resposta!
As circunstâncias poderão ter ajudado e a poesia mais simples remete para o destino, assim como as ciências ocultas remetem para o alinhamento dos astros.
A resposta torna-se evidente: Não é um assunto passível de interrogatório!
Cresce, permanece inalterado, extingue-se ou reassume o estado original da intermitência. Não há outra hipótese. E aceita-se, quando definido.
Melhor que seja o tal clarão. O brilho intenso que se alimenta e é alimentado ao ponto de ofuscar, fulgurantemente, tudo o resto que, antes, se julgava ser capaz de nos iluminar...

17 agosto 2011

Relatividade

Uma colega do meu pai contou-lhe uma história.
A sua mãe, septuagenária, visitou Nova York acompanhada pela irmã. Num dos dias da estadia na "big apple", chegaram ao hotel ao final da tarde. Entraram no elevador e, quando as portas se preparavam para fechar, entrou, apressadamente, um indivíduo de raça negra muito alto com um cão.
O cão, agitado, recebeu uma ordem do dono: "Sit!".
As senhoras fingiram ignorar o cão e simularam obedecer à ordem.
O negro alto deu uma gargalhada e confidenciou-lhes que aquele momento havia sido o mais engraçado dos últimos dias. Deu-lhes inclusivamente um cartão. Um gesto que agradeceram mas que não prestaram grande atenção.
Mais tarde, após o jantar no restaurante do hotel e quando se preparavam para pedir a conta, o empregado de mesa informou-as de que não teriam que se preocupar com o pagamento porque um outro cliente -  o tal negro alto, sentado numa mesa discreta - ofereceu-se para pagar a sua despesa.
Chegadas a Lisboa, contaram esta história à filha. Acrescentada de um pormenor: O empregado de mesa informou-as que o senhor Michael Jordan gostaria de lhes pagar o jantar. "Quem é esse tal de Michael Jordan?".
E assim, sem lhe darem grande importância, terá acontecido a história mais interessante das suas vidas. Precisamente por não saberem quem é o Michael Jordan.  Essa ignorância permitiu a sucessão de eventos. Nunca alguém que soubesse quem é o Michael Jordan, reagiria assim.

19 abril 2011

As pedrinhas

Às vezes penso em pedras. Não em todas, algumas apenas, as pedrinhas. Seja por sedimentação ou erosão, tornaram-se pedrinhas, indiferenciadas. Parte delas são integradas no processo voraz do progresso da humanidade mas muitas estão por aí, sem que alguém lhes tenha dado qualquer utilidade. Inertes, movimentam-se circunstancialmente. A passagem de um automóvel, uma rajada de vento, a chuva que caía impiedosa, o pontapé de uma criança a caminho de casa depois das aulas, uma vassoura empurrada por uma velha... São estes, e tantos outros, os eventos que fazem movimentar as pedrinhas. Tantos quanto as pedrinhas.
Se há um desejo inconfessado mais comum na humanidade, esse é o da necessidade de diferenciação. Todos achamos que temos um pouco de loucos, ostentamos as nossas preferências particulares ou usamos aquela peça de roupa que nos cai tão bem e a mais ninguém assenta de forma igual.
Esta característica torna-se mais evidente naqueles que têm aspirações a ascender à condição de artistas. Experimente-se, por exemplo, percorrer os corredores de uma instituição dedicada ao ensino das artes e poder-se-á observar, clara e indiscutivelmente, a necessidade de diferenciação. A questão é que, na ânsia da distinção,as pessoas tornam-se, nos segmentos em que se inserem, iguais. Até as suas pequenas diferenças são semelhantes.
É uma luta por afirmação que só terminará, e poucos o entendem, quando se sentir indiferença pela auto-diferenciação. Esta aceitação da igualdade permitirá, de vez, que a humanidade progrida em direcção aos valores morais que tanto apregoamos nortearem o nosso comportamento.
Vem a isto a propósito de uma série de televisão intitulada “The event” que trata, até ver, das eventuais consequências nefastas que poderão advir da intolerância. No caso, a intolerância para com uma espécie muito parecida com a humana mas extraterrestre. Uma sociedade que se rege pelos nossos princípios morais e, atenção, os aplica. Sendo que, após dezenas de anos entre nós e dada a necessidade de luta pela sua sobrevivência, alguns dos seus membros começam a interrogar-se se não deverão comprometer os seus princípios.
O problema é que qualquer telespectador percebe e reconhece que essa é a única via que se lhes permite tomar. De outra forma, seria, aos nossos olhos, inviável, inverosímel. Porque somos pedrinhas que se movimentam ao sabor das circunstâncias e não o reconhecemos. Pior, fazemos gala e manifestamo-lo publicamente no facebook e outras tantas plataformas de publicitação da nossa indignação. Uma indignação de um vazio, talvez suscitada pela passagem de um automóvel, uma rajada de vento, a chuva que caía impiedosa, o pontapé de uma criança a caminho de casa depois das aulas, uma vassoura empurrada por uma velha...

21 janeiro 2011

Declaração de voto

Não me abstenho. Nunca o fiz nem tenciono vir a fazê-lo. Minto, houve umas europeias em que não votei, não me deu jeito. Mas já votei em branco numas autárquicas. Um voto consciente, de protesto, mas que, por via de uma lei eleitoral que mais parece preocupar-se com a forma do que com o conteúdo e que visa o enobrecimento, mesmo que virtual, do exercício do voto, remete para a insignificância quem, consciente da importância do seu exercício, não se revê em quaisquer dos candidatos a uma eleição.

É nas presidenciais que este menosprezo pelos "desalinhados" mais se faz sentir. A meu ver, faria sentido que os votos em branco contassem para a necessidade de uma 2ª volta. Mas não contam. Se contassem, estou certo que, nestas eleições, teriam uma expressão muito significativa. Assim, safam-se os políticos de terem que explicar aos cidadãos as razões que teriam levado aos votos em branco. Perde a democracia.

A maior parte das pessoas nem percebe bem qual é o papel do Presidente da República. Alguns candidatos mentem sobre esse papel imiscuindo-se nas questões da governação, outros afirmam-se candidatos apartidários e apresentam-se como críticos do sistema político, embora se candidatem, e um outro, o mais profissional de todos os políticos, tenta deixar a ideia que cumpre uma missão e que nada tem ou alguma vez teve a ver com as lutas partidárias.

É natural que a confusão se instale. Nem os políticos explicam nem os cidadãos querem que lhes seja explicado. Para quê então contar o voto em branco? Para se ter que dar explicações? Mudar alguma coisa? Responsabilizar os políticos? É melhor ficarmos quietos. Está quase a começar a bola.

O voto em branco seria, nestas eleições, a minha opção.

Em primeiro lugar, sinto um profundo desprezo por candidatos que não o são:

- O Coelho, que utiliza a visibilidade de candidato à presidência da república somente para ridicularizar alguns políticos - o que não é mau de todo - e chatear o Alberto João Jardim - o que é óptimo;

- O Moura, que mais parece ser candidato à presidência da república de Viana do Castelo;

- E o Lopes, cujo papel é o mesmo de sempre dos candidatos do partido comunista: Fixar eleitorado, passar a mensagem panfletária do costume e dar a sensação de um pretenso interesse (desinteressado) do partido comunista no exercício de cargos de governação.

Depois, sendo que esta categoria se dilui na anterior, embirro com os candidatos que, acompanhados do anúncio subliminar de que são superiores intelectualmente, apresentam-se contra o sistema vigente. São contra os partidos, contra a demagogia, contra o populismo, contra as sondagens. No fundo, são contra tudo o que lhes possa dar mais votos e, pelo sim pelo não, são contra a ideia de que poderão desistir. Só mesmo se lhes derem um tiro. E, geralmente, revelam que foram ameaçados. Convenientemente, por anónimos. Refiro-me ao Nobre. Estou certo que a referência do nome tornou-se redundante.

Por último, sobram aqueles que, não importam as razões, têm pretensões ao poder.

Um deles, o Cavaco, é uma das referências da minha formação ideológica. Mas pela negativa. Considero-o o maior bluff de sempre da política nacional. Não passa de um tecnocrata com uma visão reduzida e quase ruralista do mundo. Um boneco de cera que governou o país durante 10 anos e é presidente da república há mais de 5 e nem mesmo assim lhe conseguimos descortinar quaisquer ideias sobre a vida em sociedade. É o homem do rigor e da transparência a tal ponto que nem admite ser questionado quanto à sua seriedade numa ou noutra questão mas foi o primeiro-ministro que permitu que as verbas do fundo social europeu tenham estado a saque. Começou aí o atraso de um país que esteve para deixar de ser atrasado. Não deixou de o ser. Ele é o principal culpado. Além do mais, o Cavaco fica nervoso quando sente que poderá estar minimamente em causa. E reage. Mal, saliente-se. E eu agradeço-lhe que me relembre o quanto o desprezo política e ideologicamente. Mesmo que tal implique uma subida das taxas de juro.

O outro, o Alegre, que tanto me entristece e com quem penso partilhar a ideologia política. Respeito enormemente o seu percurso de luta anti-fascista até ao 25 de Abril. Ainda mais respeito, se possível, o seu percurso de luta anti-comunista até ao 25 de Novembro. Foi ele um dos que impediu que o partido socialista - um dos bastiões da nossa democracia - se radicalizasse à esquerda durante o PREC. À esquerda que não admiro. A do centralismo democrático. A das ditaduras.

Por isso, sempre lhe perdoei alguns fait-divers como o gosto pela caça ou touradas ou ainda alguns tiques nacionalistas, no seu discurso, próprios do populismo que dele nunca esperei. Mas não lhe consigo perdoar que, ao mesmo tempo que defende uma política mais justa, fraterna e solidária, tenha decidido candidatar-se contra o candidato do seu partido porque o seu partido não o quis para seu candidato. Bela noção de fraternidade... Mas o tempo passou e antes que fôssemos obrigados a assistir a um novo take desta cena, aproveitou a desgraça em que caiu o governo e antecipou-se auto-promovendo-se, novamente, ao papel de candidato. Desta vez, e até porque a probabilidade do actual presidente da república não ser reeleito é muito reduzida, o PS finge apoiá-lo. E eu entendo o PS.

E entendo o meu voto. Não em branco, como gostaria que fosse, mas no Manuel Alegre, por exclusão de partes. O voto na parte menos excluída.

22 dezembro 2010

Oportunidades de emprego

Notícias de emprego: O sportem procura profissionais para os seguintes cargos: Assessor para o futebol profissional; Secretário técnico para a sportem SAD, Administrador delegado executivo para o futebol; Consultor técnico para o futebol; Sub-director adjunto para o futebol; Director geral para o futebol às 3ªs feiras e, finalmente, 18 técnicos de recursos humanos para processamento de salários.

O Papagaio Pein, Pein, Pein

Tive um sonho espectacular! Estava a trabalhar num evento e o que mais me saltava à vista era o ambiente reinante na festa. Boa onda, alegria contagiante, um cenário idílico da amizade e convivência. Senti-me surpreendido e intrigado. Estava claramente a superar as minhas expectativas.
Reparei então que a figura central era um papagaio. Desse papagaio, que não me recordo do aspecto, saía o som que animava a festa. Pein, Pein, Pein... E não encontrei colunas e muito menos um DJ. Pein, Pein, Pein... braços no ar, corpos soltos, pura diversão e bem-estar.
Fiquei fascinado com o papagaio. À medida que a festa ia avançando e as pessoas, levadas pelo ritmo do papagaio, mais se soltavam, dei por mim obcecado com um propósito: Aquele papagaio teria que ser meu!
Não sei o que se passou entretanto pois os sonhos não mostram tudo mas, de repente, vi-me à porta de uma mansão típica do sul dos Estados Unidos da América no século XIX, mas no Alentejo. Era outra festa mas, desta vez, fui eu quem a organizou. E, claro, como não poderia deixar de ser, lá estava o fascinante papagaio com o seu Pein, Pein, Pein ininterrupto a fazer com que aquela fosse a mais memorável de todas as festas jamais realizadas.
A festa, ao som do Pein, Pein, Pein do papagaio, parecia interminável e não havia um convidado que mostrasse vontade de a deixar, fadiga ou sequer desse ares de desejar alguma coisa diferente. Pein, Pein, Pein... Esta era a melhor festa de sempre. Sem saber porque o sentia, e até porque não encontrava algo que sentisse falta, mudara a minha vida. Para transcendentalmente melhor, saliente-se.
Por razões que a razão desconhece, ainda para mais em sonhos, a festa terminou e dei por mim sentado num sofá de uma sala enorme dessa mansão a tentar ver as notícias na televisão. O papagaio continuava com o Pein, Pein, Pein. Tornou-se maçador. Se, algum tempo antes, o Pein, Pein, Pein era fascinante, agora já se tornara importuno. Queria ouvir as notícias e o Pein, Pein, Pein não parava. Pensei que seria melhor desistir da televisão e conversar mas, mesmo a um metro de distância, não conseguia ouvir o que me estavam a tentar dizer. O Pein, Pein, Pein tornou-se insuportável.
Mas que raio de papagaio era aquele que não se calava. Senti-me estúpido por chegar a um ponto que qualquer um diria que eu estava enfeitiçado pelo bicho. A estúpida da ave deveria ser abatida. O Pein, Pein, Pein não parava, entrava pelos ouvidos e ecoava na minha cabeça.
Esta alteração súbita na forma como via o papagaio fez-me pensar. Um papagaio formidável que ritmava as festas e facilitava a empatia entre pessoas com um delicioso Pein, Pein, Pein passara a um bicho idiota incapaz de interromper, por um minuto que fosse, o seu Pein, Pein, Pein. Não fazia sentido.
E foi mesmo isso que sonhei dizer para mim próprio: "Não faz sentido... Isto é o despertador". E acordei...

16 março 2010

Lipdub no ISCTE

Uma universidade onde foi plantada uma planta de cannabis e onde tirei a minha licenciatura... Não há, nem nunca houve, impossíveis para o ISCTE!

23 agosto 2009

O assalto

Penso não estar enganado quando digo que, ao invés de "rasca", a minha geração deveria ser apelidada de "orienta aí uns trocos", pois foram incontáveis as vezes que me tentaram assaltar durante a minha adolescência.
Verdade seja dita, o sucesso das tentativas foi muito baixo mas, das vezes em que fui mesmo assaltado, dificilmente esquecerei uma delas.
Deveria ter uns 16 anos e estava na Praça de Espanha, por volta das 9 da manhã, à espera da camioneta para a Costa da Caparica. Ia acompanhado de um tio que tem a minha idade e íamos ter com o meu avô à sua casa na Costa.
Por azar, chegámos à paragem uns 30 segundos depois da camioneta ter partido o que, para além da espera de 20 minutos, aumentava consideravelmente as hipóteses de sermos assaltados pois éramos as únicas pessoas ali em pé.
Como seria de esperar, avistámos ao longe um grupo com mau aspecto a vir na nossa direcção. Eram uns 7 ou 8, fizeram-nos o pedido habitual dos trocos e ficaram-nos com o dinheiro e a mochila que o meu tio carregava.
No entanto, até se pode dizer que eram porreiros porque quando lhes pedi para devolverem o dinheiro argumentando que era o único que tínhamos para comprar o bilhete, devolveram-no e foram-se embora apenas com a mochila.
Até aqui a história não teria interesse nenhum não fosse o facto de, nessa altura, o meu avô ter ido sozinho para a Costa da Caparica porque a minha avó teve que ficar em Lisboa por um motivo qualquer.
Lembro-me que, na altura, passei dias e dias a rir-me sozinho a imaginar uns 7 ou 8 mitras todos contentes por terem catado uns putos e a irem-se embora com o magnífico pecúlio de uma das suas corajosas aventuras pelo sub-mundo do crime. A minha mãe, preocupada com a possibilidade do meu avô se esquecer de nós, obrigou-nos a levar mochila para que não houvesse qualquer problema. O que carregávamos? Apenas e só quatro bifes congelados!

01 abril 2009

Hoje...

... não é dia 1 de Abril!

30 janeiro 2009

Erro de principante

Não faço ideia quem são os meus actuais leitores, se é que existem, mas aqueles que resistem às minhas ausências prolongadas, certamente se recordarão do prazer que retiro do almoço das quintas-feiras nos Passarinhos.
Para os que não sabem, as quintas-feiras nos Passarinhos são passadas com uma travessa absurdamente recheada de um cozido à portuguesa formidável. Assim como no início das aventuras espaciais foi enviada uma gravação de uma música dos Beatles para o espaço, aquele cozido também deveria andar lá por cima.
Na semana passada, infelizmente coincidente com todas as quintas-feiras de 2009, por circunstâncias várias, não me foi possível banquetear-me como gostaria. Juro, e não estou a exagerar, que não houve um único dia desde a semana passada em que, à hora de almoço, não desse por mim a pensar no cozido do Sr. Américo.
Hoje, que seria o dia em que iria tirar a barriga de misérias, mais uma vez e à última da hora, não tive hipóteses de lá ir.
Aproveitando uma ida ao supermercado, decidi almoçar no restaurante do Pingo Doce. Prato do dia: Cozido à portuguesa. Os meus olhos cansados arregalaram-se. Não é o cozido dos Passarinhos mas é cozido.
Fiz o pedido, esperei e desesperei, até que lá me serviram o tão desejado cozido. Uma garfada, duas garfadas e rapidamente concluí que estava perante o pior cozido à portuguesa do mundo. Aposto que nem na Tailândia, se tentassem, fariam um cozido à portuguesa tão mau. Nem sequer o Conrad, no pior dos grandes romances, o Coração das Trevas, conseguiria, se o quisesse, descrever aquele cozido como mais um elemento daquele inferno que era descer o rio Congo (ou Zaire, para quem preferir).
Para memória futura: O COZIDO É NOS PASSARINHOS (e o Conrad é uma seca)!

27 janeiro 2009

Uma conspiração de estúpidos

Este pedacinho de internet já não teria razão de existência se eu não referisse que estou a ler um livro extraordinário - "Uma Conspiração de Estúpidos" do John Kennedy Toole.
O Ignatius J. Reilly, personagem principal que, de acordo com alguns, é a imagem que o Toole teria de si próprio, é mesquinho, teimoso, insolente, preguiçoso, indulgente consigo próprio mas irascível e intolerante com os outros, racista, pedante, homofóbico, fanático religioso, ultra conservador, etc, etc, etc. Numa palavra: Fascinante!
E tal deve-se ao Toole que, por força da narrativa, nos leva a criar uma estranha empatia com alguém tão execrável. Eu sinto-me assim, quase compelido a acompanhar o percurso do Reilly desde que se viu, por força das circunstâncias, obrigado a trabalhar. Vai, permanente e surrealmente, desculpabilizando os seus erros com as suas interpretações ridículas das acções dos outros. E eu quero mais. Quero que o Reilly seja cada vez pior e atire, com motivos ainda mais ridículos, a culpa para os outros.
Ainda vou a meio mas é, sem quaisquer dúvidas, a melhor primeira metade de romance que li desde há muito tempo. Ao pé deste, o último livro que li - "As memórias do elefante", do Saramago - parece o verso dos invólucros dos chocolates Baci - Uma mera frase feita para pessoas que atirem lixo para o chão, atirarem-na para o chão. Eu, que as guardo no bolso, depois de lavadas e engomadas, atiro-as para o lixo.

17 janeiro 2009

Um radar não é um professor

- Os radares são avaliados e continuam a trabalhar;
- Os radares não são promovidos nem recompensados pela antiguidade no posto;
- Os radares seguem os programas e cumprem as suas funções;
- Os radares, quando deixam de fazer aquilo que lhes é exigido, vão para o lixo;

Infelizmente, há uma semelhança deveras dispensável: Os radares são radares porque não conseguem ser mais nada. Ainda no outro dia falei com um radar que me dizia angustiado: "Estou um bocado farto desta porcaria da Radial de benfica. Os idiotas dos condutores são uns insubordinados e eu tenho que estar sempre a acender o '80'. Quem me dera ser um professor e agora poder fazer uma comissãozita de serviço na Direcção Regional ou num ministério qualquer".
História verídica!

Vrummmmm

Há uns dias ouvi uma notícia que me deixou perplexo. A Comissão de Avaliação do Sistema de Controlo de Velocidade e Vigilância do Tráfego de Lisboa considera que a instalação dos radares teve um efeito positivo. No entanto, nos locais onde os radares foram instalados faleceram mais duas pessoas que em 2007. Neste sentido, a dita Comissão decidiu propôr a redução de velocidade de 50 para 30 Km/h nestas vias.

Perplexidades:
- Existe uma Comissão de Avaliação do Sistema de Controlo de Velocidade e Vigilância do Tráfego de Lisboa;
- Do que me chegou da notícia, concluo que o efeito positivo sentiu-se... deixem cá ver... na mortalidade. Morreram mais duas pessoas, parece pouco mas foram mais 50% que em 2007.

Constatações:
- Já que a Comissão de Avaliação do Sistema de Controlo de Velocidade e Vigilância do Tráfego de Lisboa existe porque foi instalado, em Lisboa, um Sistema de Controlo de Velocidade e Vigilância do Tráfego, é previsível que a avaliação do sistema seja positiva;
- A avaliação dos avaliadores, se existisse, seria "muito positiva";
- Daqui por uns anos, o limite de velocidade, devido aos efeitos positivos que o controlo e a vigilância têm, deverá ser reduzido de 8 para 6,4 kms/h.
- Não há qualquer sindicato dos radares afecto à CGTP. Se houvesse, com este ataque bárbaro aos direitos dos radares (onde é que já se viu uma Comissão de Avaliação...), já teriam ocorrido enormes manifestações.

29 dezembro 2008

Elefante

Haverá alguma casa neste país onde não tenha havido pelo menos uma pessoa a receber o último livro do Saramago?

Ficam duas passagens...

Não percebo por que tinham esses porcos que morrer, está bem que jesus tenha feito o milagre de expulsar os espíritos imundos do corpo do geraseno, mas consentir que eles entrassem nuns pobres porcos que nada tinham que ver com o caso, nunca me pareceu uma boa maneira de acabar o trabalho, tanto mais que, sendo os demónios imortais, porque se não o fossem deus ter-lhes-ia acabado logo com a raça à nascença, o que eu quero dizer é que antes que os porcos tivessem caído à água já os demónios se haviam escapado, em minha opinião jesus não pensou bem.

... basta que recordemos a peremptória afirmação daquele jesus da galileia que, nos seus melhores tempos, se gabou de ser capaz de destruir e reconstruir o templo entre a manhã e a noite de um único dia. Ignora-se se foi por falta de mão-de-obra ou de cimento que não o fez, ou se foi por ter chegado à sensata conclusão de que o trabalho não merecia a pena, considerando que se algo se vai destruir para construí-lo outra vez, melhor será deixar tudo como estava antes.

O Relento

É verdade que não tenho escrito muito neste pedacinho de internet, tenho-o feito noutras paragens. Por vezes, dou por mim a pensar que determinada pessoa, situação ou lembrança daria um bom post. É o caso do Relento.
O Relento é um restaurante em Algés e eu sou de Algés. Em Algés eu cresci, e o Relento é conhecido pelo marisco e pelo bife "à relento" - nome original. Uma das coisas que se diz de Algés é que é lá que é o Relento, uma das coisas que digo de mim é que só há uns dias, 31 anos e vários meses depois de ter nascido, entrei, pela primeira vez, no Relento.
Devo advertir os mais desatentos que Algés, por muitos cromos que tenha, não é Nova York. Até me casar, vivi sempre na rua principal (primeiro, a dos eléctricos, depois, a da Nortenha, mais tarde, a do McDonald's, variantes de referência de ruas que, daqui a 20 anos, serão substituídas na linguagem corrente pelo voz digitalizada de um GPS) e o Relento é numa perpendicular chamada Av dos combatentes logo ao fim de 50 metros.
Ainda assim, poderia dar-se o caso de eu nunca ter explorado Algés para além da minha rua mas a Av. dos Combatentes, não sendo relevante para quem não é de Algés, além de ser a rua do Sport Algés e Dafundo, tem a Dona Fernanda que até para vender jornais é capaz de proferir obscenidades.
Acrescente-se que, na minha infância, costumava passear pela mão do meu pai a seguir ao jantar e é aqui que entra o Relento na minha vida.
Todos os dias, a seguir ao jantar, o meu pai saía para beber café. COmo não tinha cão, perguntava-me "Calisto, queres vir à rua?". Rezam as crónicas que, muitas vezes, ao ouvir o chocalhar das chaves, mais rápido que um relâmpago, estivesse a fazer o que quer que fosse, eu punha-me à porta, e lá íamos todos contentes à Nortenha, beber uma bica primeiro, desmoer o jantar depois - Hábitos que ainda hoje não tenho porque não gosto de café nem me preocupo com a digestão.
Desmoer o jantar, em Algés, significa fazer a Damião de Góis e, conforme as condições meteorológicas, subir e descer a Av. dos Combatentes até ao Algés, à gelataria que agora não me lembro do nome ou até a um centro comercial decrépito que não sei se ainda existe. Este hábito manteve-se até aos meus 16 anos. Ou seja, cerca de 13 anos a passar pelo Relento uma e outra vez, a ver pessoas à porta à espera pela sua vez, gente que se deliciava com as iguarias da casa - Marisco ou bife "à relento".
Recordo-me que o senhor pelicano sénior, muitas vezes perguntava-me "Então e se agora nós nos colocássemos no vidro a olhar para as pessoas a comer? Não achavas engraçado?" E eu achava mas, sem que entendesse os motivos, o meu pai nunca passou à prática. (Tenho pena!)
Mais tarde, foram inúmeras as vezes em que estacionei (e estaciono) o meu carro na rua do Relento e não foram poucas as vezes em que pensei, sempre que vi gente à porta, por que razão é que nunca teria ido ao restaurante.
A determinada altura, o Relento passou a ser a minha pequena caixa de Pandora. Que males poderiam vir ao mundo caso lá entrasse, não sei quais poderiam ser mas o que é certo é que, mesmo dono de mim, com dinheiro no bolso, nunca lá meti os pés.
Uma história bonita, merecedora de ser contada, até que, um dia, sem premeditar, saíram-me estas palavras profanas pela boca: "Mãe, e se fôssemos almoçar ao Relento".

Cenário idílico: Casa cheia mas uma mesa para dois livre, marisco e bifes "à relento" em todas as mesas, temperatura ambiente agradável, empregados simpáticos, cadeiras confortáveis.
"Quer um rissol acabadinho de fazer?"
"Que tal uma chamuça, são muito boas?"
"Este pastel de bacalhau é a nossa especialidade"
"Que deseja beber?"
"É um bife à Relento?"

Pim Pam Pum, de repente, sem tempo para pensar, o famoso e imensamente elogiado bife "à Relento" estava à minha frente. Bom aspecto o do bife. Aparente boa carne e um molho amarelo que dá vontade de beber a copo.
Primeira garfada e /*%&?$*%?!?!?!?!?!?!!?
Então o famoso molho do bife "à Relento" não passa de mostarda!?!?!?!??!
Anos e anos a passar à porta, a ver gente à espera para se encharcarem em mostarda?!??!?!?!
Sonhos, desejos e delírios por um prato de mostarda!??!?!?!?!?!
Quem sou eu? O que estou a fazer no mundo sem a ilusão "à Relento"?

25 outubro 2008

Capela dos ossos

Tendo em conta que a osteoporose afecta tanta gente, recomenda-se que lavem as paredes com leite!

13 outubro 2008

Suit up!

Passei por aqui apenas para dizer o seguinte: De todas as pessoas minúsculas que cabem num ecrã de televisão, neste momento, a que eu gosto mais é o Barney (ao que ele me responderia com um "Blog Five").
Como é que é possível que a série "How i met your mother" vá já na 4ª temporada e só agora eu tenha dado por ela? Nem tudo é mau... há cromos espalhados pelo mundo que se dedicam a ripar séries e, em poucos dias, já vi os primeiros 19 episódios... é caso para dizer LEGENDARY!

05 setembro 2008

Quando não se escreve há muito tempo...

... acaba-se sempre por falar de muita coisa. E tudo porque ontem vi um dos filmes mais execráveis de sempre, o Mamma Mia. Epá, ouvir a colectânea dos ABBA interpretada (será?) pela Meryl Streep, Pierce Brosnan e outros é pouco recomendável.
No entanto, já em plena agonia, dei por mim a lembrar-me de uma música de um famoso ícone da irreverência setubalense, o famoso Mitch Bacano acompanhado, como sempre, pelas alforrecas menstruadas. Recordo-me perfeitamente de ter ouvido aquele refrão notável do "chupa o pescoço que o resto é caroço" e de me ter interrogado "Como é que estes gajos fazem uma música com uma melodia tão gira?" e, só passados estes anos todos, é que percebi que a melodia é da supertrooper...
Mas, como dei por mim a pensar em música para tentar fazer rir, daí até aos Comme Restus - "melhores que os slipknot" - foi um pulo. O seu álbum "pharmácia ananaz" e o hit "Amandame com a Paxaxa Pus Dentes" já há muito que não surgia nos meus pensamentos e o que mais me dava gozo nessa música era imaginar aqueles cromos no exigente processo criativo que deve ser escrever a letra de uma canção.
Como, hoje em dia, não se pensa em nada sem se verificar se existe um vídeo no youtube, encontrei, por arrasto, o vídeo dos grandes mataratos. Os mataratos, esses skins-punks-metal-anarcas-maus genros, fizeram, durante muito tempo, parte do top de k7 mais ouvidas na minha aparelhagem.
Compreende-se! Além dos sucessos "Xavier", "CCM" ou "A minha sogra é um boi", os elementos dos Mataratos eram de Almada e Almada para mim, na minha adolescência, era uma terra mítica, quase oculta, à esquerda de quem vira para a costa, inacessível de transportes e, acima de tudo, a terra do Lobo.
O Lobo foi o meu herói da adolescência e facilmente se percebe porquê. Tem mais 4 ou 5 anos do que eu, só o via no verão e tinha paciência para andar comigo atrelado. Juro que passava o ano inteiro a pensar nas férias só para estar perto dele. Além de me ter ensinado a jogar snooker, ou de me ter proporcionado a primeira viagem de mota e de me ter apresentado a gente, por via da música, como o Satriani e outros do género, o Lobo, todos os anos, ensinava-me palavras novas.
Pela boca do Lobo, ouvi, pela primeira vez, expressões como "Granda céééna" ou "Que pedra!". Os nomes dos amigos do Lobo terminavam todos em enko ou ov (pelo menos era assim que eles se chamavam) e também eram de Almada, uma terra próxima, onde tudo acontecia mas que eu nunca tinha ido. O Lobo tinha namoradas e fazia coisas com elas. Em suma, o Lobo era um herói.
Mais um pouco do que herói até. O Lobo, na verdade, era de Cacilhas! Senhores, o Lobo era da terra por trás da mítica e misteriosa Almada, a terra dos Mataratos.
A minha adolescência foi feliz, juro! Podia ter uma vida banal entre Algés, Campo de Ourique e o Estádio da Luz (certamente, em nada comparável com as gentes de Almada e muito menos com as de Cacilhas), mas jogava muito bem basket que era o que, por volta dos 13 anos, realmente me interessava. Nunca, até hoje, gostei tanto de fazer alguma coisa como gostava de jogar basquetebol aos 13, 14 anos. Nunca mais gostarei. Viva o Benfica!

07 agosto 2008

TOP!!!

Nem tudo é negativo nesta fase em que ora me vejo como o Nutty Professor, ora reconheço em mim o Bocas, sim aquele de uns desenhos animados antigos quaisquer. Parece que tentei engolir uma bola de basquetebol e ainda a tenho na boca... Uma jiboia em início de processo digestivo é o que eu sou.
Enfim, há-de passar e não é sobre isso que me apetece escrever. Tenho passado os últimos dias adormecendo de quando em quando sendo que não devo ter dormido mais do que trinta minutos consecutivos. Parece que é normal, são reflexos da recuperação, é como se o corpo e a mente andassem num estado alucinante sem perceber bem o que é que devem fazer para além de voltar a pôr tudo na normalidade.
Como tal, a minha capacidade de concentração anda escassa. Aqui, há que dar os parabéns à televisão nacional por não nos fazer sentir mal quando nos sentimos assim. Entre o preço certo que, digam o que disserem, ainda vai tendo as piadas do gordo e os Morangos com Açúcar, venha o diabo e escolha... o preço certo.
Pode ser um cliché dizer mal dos morangos mas, quer dizer, não é um bocadinho de mais um personagem ter sido alvo de um rapto do seu filho e, por causa disso, andar toda a gente em jeito de "aventura em..." ou "nós somos os famosos 5 chatos" da Enyd Blyton?
Registei frases como "Boa, agora é que vamos encontrar a bebé, és a melhor mãe do mundo" após a excelente ideia da mãe que consistiu em fazer umas t-shirts com um bébe manhoso por baixo de, tomem bem atenção à genialidade materna, "DESAPARECIDO". Ou ainda, qualquer coisa como, "Vamos colocar uns cartazes na rua. Assim, encontramos a bebé de certeza". Depois dos presentes reagirem muito entusiasticamente à ideia e avançarem imediata e prontamente com a sugestão de não demorarem um segundo que seja a fazê-lo, o puto da ideia, para dar um ar cool, sai-se com esta: "Esperem lá que para ter estas ideias tenho que tomar o pequeno-almoço" e os outros sorriem todos, dão hi-fives e mais não sei-o-quê e a bebé, coitadita, continua desaparecida.
Moral da história: Nem todos os bebés que desaparecem significam uma história infeliz. Já viram o que seria crescer no meio daqueles diálogos e situações idiotas?

02 agosto 2008

O cu da Carolina Patrocínio

Bem sei que já passaram alguns dias desde que prometi expor as minhas ideias sobre o cu da Carolina Patrocínio mas tempo é coisa que não abunda e, sejamos honestos, há assuntos mais interessantes.
No entanto, a todos aqueles que ainda resistem às minhas ausências regulares deste pedacinho de internet continuando a verificar se decidi escrever algo e a todos os idiotas que pesquisam pelo cu da Carolina Patrocínio no google, vos devo esta pequeníssima dissertação.
O cu da Carolina Patrocínio é um bom cu. É redondo, espetado, especialmente quando esticado e, aparentemente, de uma firmeza irrepreensível. Provavelmente, cumpre todas as funções para o qual foi concebido e aí, há que reconhecer, em nada difere dos restantes 6 biliões de cus neste mundo. Ainda assim, é notório que há uma aura de entusiasmo neste cantinho da Europa em redor do cu da Carolina Patrocínio!
Vem isto a propósito de, há umas duas semanas atrás, o cu da Carolina Patrocínio ter estado na mesma praia que eu a uns escassos metros dos meus olhos. Diga-se, suficientemente despido para exercer influência sobre a direcção em que os olhos dos banhistas se movimentavam.
Claro que a dona do cu da Carolina Patrocínio sabe que tem um bom cu. De minutos a minutos, era vê-la a colocar os braços bem ao alto, esticando o corpo todo, para que algum "paparazzi" a visse e a colocasse, mais uma vez, na capa de uma revista cor-de-rosa tornando-a, por força do domínio que o cu da Carolina Patrocínio tem exercitado no zoom dos olhos dos portugueses, numa revista castanha.
Sim, porque a dona do cu da Carolina Patrocínio, devido ao seu bronze enormemente trabalhado, é a mais séria candidata a Manuela Marle 2025 e é isto que a dona do cu da Carolina Patrocínio não entende.
Cus há muitos e atrás de cus, cus vêm. Crianças também e este erro de análise não lhe posso perdoar. Com a já notada queda das carnes que compõem o cu da Carolina Patrocínio, prevejo a necessidade de, daqui a uns anos, que lhe cortem às postas aquilo que tantos admiram hoje. Mais tarde ou mais cedo, a Disney fartar-se-á que os seus telespectadores não sejam as criancinhas mas antes os pais delas que, à falta de firmeza em casa, deliciam-se sonhando, quase pedofilamente, em frente ao aparelho de televisão. Estou até desconfiado que a recente promoção do Meo em que o Disney Channel passou a canal gratuito, sirva mesmo para transmitir a mensagem de que, se a dona do cu da Carolina Patrocínio é oferecida gratuitamente aos seus filhos, imaginem o que estará por trás do "Sexy Hot - Este canal é pago".
A forma, neste caso, mesmo sendo mais importante que o conteúdo, não dura para sempre e é aqui que, mesmo tendo um dos grandes marketeers dos lobos, o Uva, por trás (sem malícia), temo pelo futuro da dona do cu da Carolina Patrocínio - um futuro repleto de idas à guilhotina para se manter em capas de revista. Não é digno.

22 julho 2008

A forma é mais importante que o conteúdo

Refiro-me, claro, ao cu da Carolina Patrocínio o qual, com tempo, merece um post!

17 julho 2008

Piada de seguros

Enquanto esperava no átrio de entrada da seguradora onde ontem tive uma reunião, de repente, reparei na chapeleira com cerda de 6 chapéus de chuva. Estranhei e, como tenho esta característica de me divertir comigo mesmo, comecei-me a rir.
No fim da reunião partilhei o que havia pensado...
"Como está céu limpo e 35 graus, haver 6 chapéus de chuva na entrada é caso para pensar que o seguro morreu de velho!"

15 julho 2008

Workshop de auto-maquilhagem

Depois do sucesso da primeira edição realizada no passado domingo, vai haver um novo workshop de auto-maquilhagem "Perfeita de dia, deslumbrante à noite", desta vez no próximo dia 27, um Domingo, das 14 às 19:30.
Mais informação aqui!

09 julho 2008

E assim se perdem oportunidades de negócio

Ouvi dizer que a minha ex-mulher vai casar-se novamente e eu, que tenho um serviço tão giro para eventos como, por exemplo, casamentos, não lhe posso vender porque, ao que parece, não foi de bom tom querer divorciar-me. Bolas!